NOVAS PERSPECTIVAS PARA A AVALIAÇÃO DO RAFEIRO DO ALENTEJO?

 

 

*José Abreu Alpoím


Introdução

Passados quase 10 anos, ouvíamos pela primeira vez referências à existência de um tipo de cão que na região vinha sendo designado por cão de gado transmontano.
A par da perplexidade de uns e da desconfiança de outros, pudemos assistir à tenaz determinação em conduzir um processo de reconhecimento desta população canina, que levou ao aparecimento da nona raça Portuguesa.
Dadas as funções que então exercíamos, acompanhamos de perto e com alguma curiosidade toda uma série de acções, as quais apoiadas em meios humanos e materiais nunca vistos, atingiram tão rápido quanto possível os seus objectivos.
Pensamos no entanto, que tão súbita “paixão” tem apesar de tudo algo de positivo, e pena é que os vastos meios despendidos em tal campanha não tenham sido melhor aplicados, se repartidos por outras raças Portuguesas cuja situação actual é tudo menos tranquila. Tratou-se afinal de um movimento com uma aceleração desmedida, quase diríamos mesmo imparável, por vezes acompanhado de alguma pompa e circunstância.
É precisamente no decorrer de tão inusitada apoteose que surgem as nossas primeiras preocupações, pois que se por um lado compreendemos tamanho empenhamento na criação de uma nova raça, por outro lado ficámos apreensivos pela falta de espaço por demais evidente tendo em conta as características da mesma.
Para abrilhantar, surge no momento mais oportuno o livro da raça em luxuosa encadernação, sem dúvida um excelente trabalho gráfico onde são apresentadas magnificas fotografias, que originaram alguma preocupação.
Simultaneamente foi nos entregue um folheto igualmente com excelente apresentação, onde para além das já existentes figurava a nova raça Portuguesa.



Alguns aspectos morfológicos


A capa do livro “Cão de gado Transmontano” apresenta-nos uma sugestiva fotografia de um belo cão, o qual apenas poderíamos penalizar por possuir orelhas maiores que o desejável e cauda um tanto enrolada mas admissível pela posição expectante para que pudéssemos sem qualquer exitação pensar tratar-se de um excelente Rafeiro.
No entanto ao tomarmos contacto com o conteúdo deste livro mais perplexos ficamos, dado que umas vezes nos mostram excelentes Rafeiros, como outras nos apresentam exemplares que nunca poderíamos ver incluídos nesta raça Alentejana.

Também no folheto então distribuído, são reproduzidas duas cabeças de cada uma daquelas duas raças, e que nos atreveríamos considera–las provavelmente como pertencentes a cães de uma mesma ninhada de Rafeiros.

Qual delas será afinal o nosso Rafeiro?


A confusão é mais patente quando a páginas 72 são apresentadas as raças similares. Somos então forçados a concluir que o exemplar que se pretende como sendo o cão Transmontano, é o que mais se assemelha a um nobre Rafeiro do Alentejo. Poderoso e altivo como sempre o conhecemos, a par de uma bela cabeça e de uma linda pelagem.

Qual delas será afinal o nosso Rafeiro?


Quanto ao que pretende representar a raça Alentejana é igualmente um bom exemplar e pena é que a imagem nos deixe ideia de um cão páticurto.

Quando da publicação do boletim da ACRA nº 21 em 2003, referia-nos ao aparecimento desta nova raça tendo afirmado “é preciso que fique transparente quais os pontos essenciais em que se irá apoiar a diferenciação entre as duas raças, pois que essa distância é quanto nós um tanto curta”.
Constatamos entretanto, que num só ano (2005), num abrir e fechar de olhos surgiram em registo inicial, nada menos de 289 exemplares daquela raça Transmontana que tendo em conta a reconhecida heterogeneidade existente naquela população, nos deixou num tanto apreensivos.

Julgamos mais sensato não ter avançado tão rápido, ter sido um pouco mais exigente na uniformidade fenótipica, bem como mais cauteloso na selecção da imagem que deste cão se pretendeu dar a conhecer ao País.
É por demais evidente qual das duas raças apresenta afinal crânios largos e bem abaulados, chanfros curtos e grossos, orelhas pequenas e bem pendentes, peito largo e bem descido (ligeiramente abaixo do codilho) e ventre nada arregaçado.

 

A que raça, pertence afinal este cão?


São estas entre outras as características que deverão marcar a diferença, que poderão ou não dar garantia de futuro e de credibilidade a qualquer destas raças.
Da análise das tabelas biométricas, fica-nos a dúvida a que tipo morfológico (índece corporal) pertence afinal o cão Transmontano. As tabelas indicam-no como um sub-longilíneo, enquanto o estalão o define como um mediolíneo com tendência a brevilíneo. Existe de facto uma diferença de mais 4 a 6 cm na estatura do cão de gado, no entanto nunca poderemos aceitar que este parâmetro constitua base para fazer distinção entre elas.
Não nos esqueçamos que estamos perante duas raças qualquer delas classificadas no grupo mesaticefalos (índice cefálico) que representam um mesmo tipo de cão uma mesma expressão, a mesma pelagem e até funcionalidade semelhante .
Como sempre afirmamos o estalão de uma nova raça nunca deverá exigir cedências ou ajustes de um outro já existente.
Resta-nos todavia algumas dúvidas, mas nem todas resultantes do surgimento de um novo estalão. Nas últimas alterações do estalão do Rafeiro, nomeadamente no que se refere às proporções, foi incluída uma nova alínea que determina que a altura do peito deva ser ligeiramente inferior ao vazio sub-esternal. Poder–se-á induzir que se pretende assim Rafeiros mais altos e de menor volume de peito, o que parece contrariar a tendência desejável para melhor poder identificar e distinguir as mesmas proporções entre raças afins.


Conclusões

Grosso modo, o Rafeiro impõe o seu perfil como uma raça que ostenta uma cabeça volumosa um tronco compacto e menor altura ao garrote quando comparado com o cão de Gado, este sim de aspecto menos pesado e mais solto de movimentos.

Aqui se observam duas linhas bem distintas que produzem de facto duas raças.


A que raça pertence afinal este cão?
Aqui se observam duas linhas bem distintas que reproduzem de facto duas raças

É indispensável de uma vez eliminar quaisquer dúvidas que possam surgir quer por parte de criadores quer de juízes, e bom seria que os parâmetros de diferenciação entre as raças se tornem cada vez mais objectivos e reconhecidos.
Nunca pretendemos nem tal estaria por certo ao nosso alcance, contrariar ou sequer negar mérito ao trabalho realizado para criar uma nova raça canina Portuguesa, não podemos contudo deixar de nos referir ao quanto nos parece menos correcto, ou de interpretação ambígua.
Foi desde sempre nossa intenção que os espaços ocupados por qualquer raça devam ser cuidadosamente salvaguardados, para que uma imagem fiel seja distinta e respeitada, permitindo uma diferenciação para as que lhes estão próximas tão evidente quanto honesta.
 


*Secretário Técnico da Raça

   
 

 
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