HISTÓRIAS DE RAFEIROS
RAFEIROS COM HISTÓRIA
*Carlos D'Orey
O
Zorro
Estávamos no princípio dos anos 60. O casal de rafeiros que
guardavam o Monte da Faia eram a Espiga e o Chaparro. Era um
casal de cães que chamava a atenção pela sua imponência, a
beleza da pelagem, a firmeza na defesa do seu território, a
serenidade do seu olhar e a brandura com que se manifestavam
perante os conhecidos, sempre esperando uma festa. E tudo o
que de bom possuíam, à sua descendência transmitiam.
De cada vez que a Espiga ficava prenha, ainda os cachorros
não tinham nascido já o Joaquim Mouchinho, o guarda do
Monte, estava a receber pedidos de um cão ou uma cadela. Os
cachorros nascidos nunca eram suficientes para as
encomendas.
Maria Ana era uma moça de Portel, notada pela sua figura e
beleza. Cedo foi estudar para Évora e depois para Lisboa
onde tirou o curso de Direito. Mas o Alentejo não é terra
que se esqueça, nem que facilmente se troque por outra, e
logo que acabou o estágio, a Maria Ana foi de novo viver
para Portel, onde passou a exercer advocacia.
Como vivia numa quinta perto da vila, depressa nasceu nela
o desejo de ter um cão, e que outra raça poderia ela
escolher senão um Rafeiro do Alentejo?.
A fama dos cachorros do monte da Faia já era do seu
conhecimento. Tal como o Monte, a sua quinta também era na
freguesia de Santana e duma à outra era um salto. Apesar do
caminho para o Monte não ser propriamente uma estrada, nem
os buracos meteram medo à Maria Ana, e meteu o automóvel na
sua direcção.
Ò menina, disse o Joaquim Mouchinho, eu já tenho pedidos
que não sei se duas ninhadas chegam para os satisfazer a
todos, mas esteja vossemecê descansada que se para a próxima
ela tiver um a mais eu lho guardo.
A Espiga estava por acaso prenha já de 1 mês, mas as
encomendas que havia não deram a Maria Ana qualquer hipótese
de ficar desta vez com o seu cachorro.
Mas não desistiu, como toda a gente, tinha ficado encantada
com a Espiga e o Chaparro, e ali decidiu que seriam eles os
pais do seu futuro cão.
Esperou mais seis meses, ao longo dos quais se deslocou
várias vezes à Faia para saber notícias da procriação
daquele casal de Rafeiros do Alentejo.
Nascida a ninhada seguinte, foi com alegria que recebeu a
notícia de que haveria um cachorro para ela. No dia seguinte
à cadela ter parido, meteu-se a caminho do Monte.
Tinham nascido 13 cachorros, três nado-mortos, três tinham
durante a noite morrido, restavam sete, duas cadelas e cinco
machos.
Dois deles tinham uma pelagem em que predominava o lobeiro,
formando como que uma capa, uma gola branca, a barriga e as
patas também brancas assim como a cauda; todos os outros
tinham um fundo branco, onde se inseriam malhas escuras que
mais tarde viriam a ser de cor lobeiro
Com 1 dia de idade, é quase impossível prever a qualidade
do futuro cão, mas a Maria Ana não demorou a escolher um: —
é aquele, se ainda ninguém o tiver escolhido.
— Esteja a menina descansada que é esse mesmo que fica para
si, respondeu o Joaquim Mouchinho.
Nas semanas que se seguiram foram frequentes as visitas à
Faia para ver a evolução dos cachorros Não haviam eles de
estar bons, o Joaquim Mouchinho sempre que ordenhava as suas
cabras, lá ia dar uma dose de leite aos cachorros. Assim, a
partir das três semanas de idade, alem do leite da mãe,
ainda tinham a dose extra de leite de cabra, quando não lhes
calhava também um pedaço de soro ou de almece. Via-se o
crescimento de um dia pró outro. De tal maneira que com seis
semanas já estavam capazes de serem separados da mãe.
A Maria Ana já não podia esperar mais e foi com seis
semanas que levou o seu cão.
A genica e a esperteza do cachorro inspirou-a para lhe pôr
o nome: Zorro, passou desde logo a chamar-se.
A Maria Ana já tinha comprado alguns livros sobre o ensino
de cães e falado com pessoas conhecedoras do assunto, e
assim começou desde cedo a ensiná-lo, não só a comportar-se
e a obedecer, mas também a fazer algumas habilidades. E o
cachorro começou logo a mostrar que tinha uma inteligência e
uma aptidão superior ao normal.
Com 15 meses já fazia coisas que não é comum ver-se num
Rafeiro do Alentejo, talvez porque não é costume ensiná-los.
Era bonito de se ver, quando a Maria Ana se passeava na
vila com o Zorro à trela. A elegância da dona e do cão
juntos chamavam a atenção do mais indiferente. Mas era até
ao campo que a Maria Ana gostava mais de ir, aí deixava-o à
solta em louca correria, brincava com ele, treinava as
habilidades que já lhe ensinara e fazia-o aprender mais
alguma.
Tinha o Zorro perto de dois anos quando algo de terrível
aconteceu.
Nesse dia tinha a Maria Ana decidido ir a Évora a casa de
uma amiga. Esta vivia num Monte e como já era costume
resolveu também levar o Zorro para o deixar lá correr à
vontade.
Naquele tempo não havia ainda o IP2, e a estrada antiga à
saída de Portel, ainda na serra, tinha umas dezenas largas
de curvas. Era o Furadouro, conhecido pela perigosidade das
suas curvas.
Passado algum tempo da saída da Maria Ana de casa, chegou a
Portel a notícia: — o carro da Maria Ana estava na última
curva do Furadouro de encontro a um cipreste.
Ao local chegou a GNR, os Bombeiros e muita gente de Portel
e Monte do Trigo. Dentro do automóvel jazia a Maria Ana
banhada em sangue, depressa se constatou que já não vivia.
Ao seu lado, o Zorro, também ferido mas vivo, ladrava
ferozmente para quem se aproximava do carro. Aqueles dentes,
evidenciados pelos beiços arreganhados, não deixavam dúvidas
a qualquer um que se quisesse aproximar do automóvel. Para
desencarcerar a Maria Ana do carro teve que se chamar o
veterinário, que conseguiu, através de uma frincha da janela
aberta, dar ao Zorro uma injecção tranquilizante.
O enterro e os dias seguintes foram de grande pesar em todo
o concelho pois toda a gente conhecia a Maria Ana.
E uma pergunta que toda a gente fazia era: — E o que vai
ser agora do Zorro, na mão dela era meigo com toda a gente,
mas vocês viram como o cão estava dentro do carro? Se
pudesse de lá sair tinha dado cabo de quem apanhasse à
frente.
O animal foi levado, adormecido, para as instalações da GNR
que na realidade não tinha condições para lá ter um cão.
Provisoriamente foi o bicho metido numa divisão que servia
de arrecadação. A comida tinha de ser atirada pela janela
pois ninguém se atrevia a lá entrar.
De repente um dos militares lembrou-se de um camarada seu
que era também lá da terra mas estava colocado na secção de
cães da GNR na Ajuda.
O Zé Pedro era nascido e criado num monte da freguesia da
Amieira, desde rapaz pequeno habituado e com um jeito muito
especial para lidar com cães. Tanto assim era que, chegada a
idade da tropa, ofereceu-se para os Paraquedistas e uma vez
lá dentro foi escolhido para a secção cinófila (cães de
combate). O corpo de paraquedistas estava no seu início. O
Zé Pedro teve instrução na Argélia e foi depois mandado para
a Africa do Sul, onde tirou um curso de cães de combate.
Durante o seu tempo de Serviço Militar esteve sempre nesta
função e aperfeiçoou profundamente os seus conhecimentos
sobre cães. De tal modo que era conhecido, no mundo cinófilo,
não só dentro da sua unidade, mas até fora da área militar.
Acabado o seu tempo de serviço obrigatório ofereceu-se
para a GNR, e, como não podia deixar de ser, para a secção
cinófila desta força.
Na Ajuda as suas aptidões depressa ganharam fama, quando
aparecia algum cão que ninguém fazia nada dele, lá estava o
Zé Pedro. Depressa chegou a sargento.
Também o seu camarada de Portel dele se lembrou, — o Zé
Pedro é o único homem capaz de fazer alguma coisa do
cão, e havia pressa no assunto pois a situação estava a
tornar-se insuportável para os homens do posto, mas também
para o próprio animal. O comandante do posto de Portel falou
com o Zé Pedro que logo aceitou a missão com entusiasmo.
Depois expôs o caso ao seu colega da unidade da Ajuda que
imediatamente deu 15 dias de licença ao Zé Pedro.
No dia seguinte estava o Zé Pedro em Portel, e antes mesmo
de ir a casa ver os pais, foi directamente ao posto
apresentar-se e ver o Zorro. A ferocidade do cão
mantinha-se, mal via alguém assomar-se à janela atirava-se
com uma raiva nunca vista neste animal. Era como se quisesse
dizer: “ roubaram-me a minha dona, mais ninguém me porá a
mão em cima”.
Mas o Zé Pedro ficou imediatamente apanhado pelo animal.
Foi falar com o comandante e disse: — se querem que eu
faça alguma coisa do cão eu faço, mas tem que ser tudo como
eu disser. A partir de agora sou eu só e mais ninguém que
lhe dá de comer. Não convêm mesmo que outra pessoa se mostre
ao bicho. E eu necessito de um artigo pessoal usado pela
dona, um sapato velho, uma camisola que ela usasse com
frequência, qualquer coisa que mantenha o seu odor.
Nesse mesmo dia obteve o que precisava, e até ao dia
seguinte nem ele nem mais ninguém se aproximou do cão, nem
este teve qualquer refeição.
Na manhã seguinte o Zé Pedro foi-se pôr à janela do
armazém, à cintura levava atado pelas mangas a camisola da
Maria Ana que os pais desta tinham arranjado. Pela janela
atirou o sapato. O Zorro atirou-se ao sapato mas não o
mordeu, pelo contrário lambeu-o, pegou-lhe gentilmente com a
boca sem o amachucar levou-o para um canto, lambeu-o
novamente olhando de soslaio para a janela onde o Zé Pedro
se mantinha. Mas a atitude não mudou muito, de repente
atirou-se outra vez à janela ladrando ferozmente. Mas não
foi por muito tempo, e voltou para ao pé do sapato. O Zé
Pedro continuou a falar prolongadamente com ele, mantendo a
voz calma e firme, o cão começou a ter intervalos de
segundos que se calava, o Zé Pedro deu-lhe então uma
guloseima continuando sempre a falar com ele. Só para comer
ele próprio, se afastou o rapaz de ao pé do cão. No final do
dia já notava no Zorro uma diminuição da agressividade. Um
balde cheio de comida foi-lhe descido pela janela. O cão
comeu e foi-se deitar ao pé do sapato, e com a cabeça em
cima dele se manteve toda a noite. No dia seguinte, manhã
cedo, lá estava o Zé Pedro à janela do Zorro, camisola atada
à cintura. O Zorro veio lá do canto que nem um chaimite,
ladrou direito ao Zé Pedro, mas a raiva dos dias anteriores
tinha diminuído. O Zé Pedro continuou tal como no dia
anterior. Nunca deixou de falar naquele tom calmo,
confiante, uma guloseima nas alturas em que o cão mais
sossegava, a refeição no final do dia.
E assim manteve esta rotina durante os dias que se
seguiram.
De dia para dia o Zé Pedro notava no Zorro uma melhoria de
atitude, foi ficando mais calmo, já não ladrava tão
furiosamente à aproximação do Zé Pedro da janela, e este
conseguia até notar-lhe um ar satisfeito quando lhe atirava
com uma guloseima.
Ao décimo dia, achou o Zé Pedro que era altura de tentar
uma aproximação mais íntima, entrar dentro do armazém.
Começou o dia como os outros, uma longa conversa através da
janela, duas ou três guloseimas, e nunca deixando de falar,
dirigiu-se à porta com o seu grosso capote na mão, não fosse
o diabo tecê-las. Devagar, abriu uma nesga da porta, e
curiosamente o Zorro limitou-se a olhar do seu canto sem
qualquer atitude agressiva, mantendo apenas um ar de
respeito e não muita confiança. Mas confiança era coisa que
não faltava ao Zé Pedro. Tinham-lha dado os seus já muitos
anos de experiência.
Fechou a porta atrás de si e manteve-se perto dela, o
capote preparado para qualquer eventualidade, o talêgo com
as guloseimas do costume, a camisola da Maria Ana sempre
atada à cintura. No seu canto e ao pé do sapato, o Zorro
mantinha-se em expectativa, admirado daquela mudança de
postura por parte de quem nunca tinha visto senão através da
janela. Mas tinha também a noção de que era aquele o único
cuja voz ele ouvira durante todos aqueles dias, o único que lhe dera
de comer, e aquele que até tinha algum cheiro que era comum
à sua dona, ainda não totalmente esquecida. Ao pé do sapato
tão reconfortante, acabou por se sentar, sem porém nunca se
aproximar do Zé Pedro. Também sem nunca se afastar da porta,
o Zé Pedro continuou a falar e a atirar ao Zorro uma ou
outra guloseima, sem no entanto invadir o seu espaço.
Depois do almoço já entrou com mais confiança na casa do
Zorro, a assim continuou a fazer nos dias que se seguiram.
Aos poucos ia-se reduzindo a distância entre os dois. Um
dia o Zé Pedro pôs-lhe as costas da mão ao alcance da cabeça
do Zorro. Este aproximou-se, cheirou, lambeu-lhe a mão. A
conquista não estava ainda efectivada, mas tinha sido ganha
uma importante batalha. A evolução foi rápida nos dias que
se seguiram. Depressa o Zorro consentiu que o Zé Pedro lhe
fizesse festas, e ao fim de pouco tempo estava a pôr-lhe uma
trela, aquela mesma trela que tantas vezes lhe tinha sido
colocada pela Maria Ana. E pela primeira vez desde o
desaparecimento desta, o Zorro saiu e passeou-se fora do
armazém.
Entretanto os quinze dias de licença tinham passado. O Zé
Pedro falou com o comandante do posto: — meu comandante,
a minha missão está mais adiantada do que eu previa, mas
para se completar e se aproveitar o que eu fiz preciso de
mais tempo. O ideal seria mesmo eu voltar para a minha
unidade e poder levar o cão comigo. Alguma coisa me diz que
eu conseguia treinar o cão como cão militar.
Ó Zé
Pedro,
disse-lhe o comandante, eu por mim dou-te já o OK, até
porque a presença do animal cá no posto tem distraído de
mais os meus homens, mas duvido que o teu comandante esteja
pelos ajustes, no entanto eu vou-te dar uma ajuda e vou eu
mesmo telefonar-lhe.
O comandante da Ajuda, como se esperava não foi fácil de
convencer. Ó Zé Pedro, disse ele, mais uns dias de
licença eu não tenho dúvida em te dar, mas trazer o cão aqui
para a unidade?, tu já viste a figura que aqui iria fazer um
Rafeiro do Alentejo no meio dos nossos Pastor Alemão?.
Mas o Zé Pedro não desistia com facilidade, e a sua fama
permitia-lhe alguma autoridade para poder insistir com o seu
comandante. E assim conseguiu quebrar a renitência deste.
Ficou mais cinco dias em Portel durante os quais estreitou
mais os laços com o Zorro, e este já dava saltos de alegria
quando sentia a aproximação do Zé Pedro, pois sabia que ia
dar um passeio.
De boleia num carro da GNR que passou a caminho de Lisboa,
lá foram o Zé Pedro e o Zorro direitos à Ajuda, sendo
recebidos no meio da algazarra dos outros cães, que logo
perceberam a chegada de um que não era dos seus, e da
curiosidade dos outros militares, que, embora sabendo já de
toda a história, estavam a ver pela primeira vez na unidade
um cão que não era um Pastor Alemão. E logo começaram os
comentários meios trocistas: — sempre quero ver, um bicho
com um peso destes fazer o mesmo que os nossos, etc.
O Zé Pedro tinha acabado de preparar um cão para um novo
recruta de modo que não tinha de momento nenhum distribuído.
Pediu por isso ao comandante que o deixasse trabalhar com o
Zorro.
— És mesmo teimoso, disse-lhe o comandante, tu
achas mesmo que vai dar algum resultado perder tempo com um
cão destes que não tem nada a ver com o tipo do cão polícia
ou de combate?.
— Ò meu comandante, chamaram-me para fazer este trabalho
por acharem que seria eu o único que o conseguiria fazer, eu
cheguei ao fim, agora deixe-me eu ir ainda mais longe pois
eu sei que também o consigo.
— Bem, tens autorização, mas se não obtiveres resultados
dentro de um mês, tens que procurar outro destino para o cão.
No dia seguinte começou o Zé Pedro e o Zorro a trabalharem
afincadamente todos os dias, ao princípio isolados dos
outros, mas depressa se juntaram a uma secção. O Zorro
continuava a só permitir intimidades ao Zé Pedro, mas também
não se mostrava agressivo nem para com os outros cães nem
perante os homens, desde que o seu espaço fosse respeitado.
Os progressos notavam-se a olhos vistos, apenas em
agility e outros exercícios que requeriam
especial velocidade ele ficava para trás, o que o
próprio Zé Pedro aliás, já esperava. Mas havia exercícios em
que era a força, tanto de maxilares como de membros as
faculdades mais necessárias, aí era o Zorro que mais se
fazia notar.
O comandante começou a aparecer nos treinos, sorria de
satisfação, e nunca faltava uma palmada nas costas do Zé
Pedro a incentivá-lo.
Um dia, numa parada militar, foi requisitada uma secção de
cães da GNR para uma demonstração. Entre os cães escolhidos
achou o comandante que seria interessante inserir o Zorro.
Eram sete cães. Era imponente a figura do Zorro no meio dos
outros. Um Rafeiro do Alentejo, três cães de Pastor Alemão
de cada lado. Destacava-se pelo tamanho, pela cor, pela
calma que exalava. Durante a parada e demonstração de
exercícios, foi ele o mais aclamado.
O comandante estava radiante, tinha valido a pena confiar
no Zé Pedro.
Dali em diante o Zorro seria considerado um cão polícia
como os outros. Pela primeira vez a GNR tinha no seu
departamento cinófilo um cão de uma raça portuguesa, um
Rafeiro do Alentejo.
Foram muitas as operações em que o Zorro tomou parte e nas
quais teve um papel de destaque. Descrevê-las todas daria
para um livro.
Por isso vou apenas contar a última que lamentavelmente não
foi feliz.
Foi pedida a intervenção de uma equipa de cães para uma
operação que tinha por objectivo a captura de um gang de
assaltantes. Eram considerados violentos e perigosos e
previa-se por isso a necessidade de ser aplicada a força por
parte dos agentes da ordem.
O Zé Pedro e o Zorro foram um dos binómios escolhidos para
integrar esta equipa.
A operação começou a correr bem, mas a dada altura os
meliantes começaram com tiros aos quais os militares
tiveram que responder. As equipes cinófilas avançaram, o Zé
Pedro e o Zorro quiseram flanquear elementos que disparavam
do lado esquerdo.
O Zorro já tinha participado em operações que envolveram
disparos tanto de pistolas e revolveres, como de caçadeiras
e carabinas, os tiros não lhe metiam medo, mas ele tinha a
noção do perigo que constituía um tiro, já tinha visto
homens e animais seus congéneres serem atingidos por balas.
Nisto, o Zé Pedro sentiu que estava muito perto de um dos
criminosos, e quis apanhá-lo
sem no entanto disparar a sua arma. Saltou na sua direcção
apontando a pistola e dando ordem de prisão, mas não se deu
conta de um outro que se encontrava perto.
O Zorro é que estava atento, e de um salto atirou-se a ele
pondo-se entre o criminoso e o Zé Pedro, mesmo na altura em
que aquele disparou três tiros de revolver na direcção do
seu dono.
O Zorro caiu de lado, ganindo, mas nunca deixando de rosnar
na direcção do atacante.
Entretanto chegaram mais militares, que dominaram os
criminosos, e o Zé Pedro já não via nada que não fosse o seu
companheiro ali estendido, gemendo de dor. Abraçado a ele,
despiu a sua própria camisa para com ela lhe tapar os
buracos das balas e por onde saía sangue às golfadas.
O peso do Zorro não lhe permitia pegar-lhe ao colo, por
isso teve de esperar que trouxessem uma maca para
transportar o cão, que foi de imediato levado para o
hospital veterinário. Ali foi imediatamente operado, a
operação correu bem, as balas foram extraídas, o Zorro
estava vivo.
A pouco e pouco recuperou, passados uns meses já andava,
mas nunca mais foi o mesmo Zorro, custava-lhe correr,
exercícios nem pensar, pendia para um lado, claudicava, o
seu olhar deixou de ter aquele brilho revelador de uma
inteligência acima do normal e um instinto apurado.
O Zé Pedro, praticamente não saiu da ao pé dele durante o
primeiro mês, logo que começou a dar uns passos,
acompanhava-o em curtos passeios, encorajando-o,
acarinhando-o. Mas percebia que o Zorro nunca mais podia ser
um cão polícia.
O destino que usualmente se dava a um animal neste estado
era o abate. Uma injecção intravenosa, e o cão nada sofria.
Mas isso era um destino impensável para o Zé Pedro, nunca o
permitiria, levaria o Zorro para sua casa, acompanhá-lo-ia,
trataria dele até naturalmente se finar, pediria uma licença
mais prolongada, iria para a reforma antecipada se fosse
necessário, mas nunca se separaria do seu cão. Afinal o
Zorro tinha-lhe salvo a vida, pondo-se entre ele e as
balas.
Falou com o seu comandante, mas este tinha necessidade do
Zé Pedro, não podia ficar assim de repente sem um elemento
da sua competência. Mas o comandante era um homem
compreensivo e sensível, também ele tinha passado a gostar
do Zorro e a admirá-lo. Chegou-se a um compromisso.
Ao Zorro foi-lhe atribuído um canil na unidade, que o Zé
Pedro apetrechou com todas as comodidades. O Zé Pedro passou
a exercer apenas as funções de instrutor.
Ao fim da tarde, depois da instrução, os militares da
unidade habituaram-se a ver na parada e nos jardins do
quartel, o Zé Pedro e o Zorro a passearem, devagar, o homem
a olhar para o cão embevecido e orgulhoso, acariciando-o,
dando-lhe força. Nos canis, os Pastor Alemão no activo
uivavam por vezes todos à uma, como camaradas que saúdam um
herói de guerra ferido em combate. Um Rafeiro do Alentejo.
*Presidente da Direcção da ACRA.