ALIMENTAÇÃO DE CÃES
*José Manuel
Abreu
A perspectiva de um
criador
Tal
como sucede em todas as espécies domésticas, uma correcta
alimentação de um cão pressupõe a satisfação das suas
necessidades energéticas, proteicas, lipídicas, minerais e
vitamínicas; mas também o evitar de excessos e
desequilíbrios que afectem negativamente o bem-
estar, a saúde e a longevidade do animal, e de regimes que
agravem os incómodos associados à posse de cães
(cheiros, etc...).
A ingestão de alimentos pelo cão é em primeiro lugar
controlada pela satisfação das suas necessidades
energéticas.
A concentração
energética da dieta deverá portanto situar-se dentro dos
limites que permitem ao animal exercer esse controlo,
enquanto que a densidade da dieta nos restantes nutrientes
deverá ser ajustada a essa concentração, e a aumentam,
devido ao frio, e poderá ser interessante recorrer a dietas
de maior concentração energética, proporcionalmente
enriquecidas nos vários nutrientes.
Uma das forma de aumentar a concentração energética é,
evidentemente, a formulação de dietas de alto teor de
gordura. Uma outra é a de juntar algum óleo ou gordura a uma
ração comercial standard. Aconselha-se nesse caso evitar
gorduras de má qualidade (rançosas,
oxidadas, etc...).
A questão da fibra é interessante. Todos temos visto cães
comerem alimentos fibrosos, quando não mesmo erva (e também
os temos visto vomitarem-na, logo de seguida...). Alguns
oligosacáridos indigestíveis são actualmente objecto de
muita atenção por parte de
investigadores e nutricionistas. Que o cão não digere a
fibra é ponto assente. Os potenciais efeitos benéficos da
sua ingestão, muitas vezes atribuídos, com ou sem razão a
efeitos anti parasitários, estarão por demonstrar e
explicar. As características físicas da ração, têm uma
importância particular, senão determinante, na alimentação
dos cães. Se características tais como a cor, são mais
importantes para o dono que para o cão, outras são realmente
importantes para ele: o tamanho, a forma, a dureza. A dureza
e a forma, devem ser as óptimas para estimular a mastigação
e a salivação, sem dificultarem exageradamente a primeira,
provocando fadiga.
Rações de alta energia,cuidadosamente formuladas,
ultrapassam este problema.
Em contrapartida, se distribuídas sem critério, poderão
levar a excessos se estivermos perante animais adultos,
inactivos e potencialmente vorazes.
Para além disso, devem ser ajustadas à idade do animal: um
cachorro, ainda com uma dentição insuficiente e em muda,
exige maior apetência, mais fácil preensão, e menos dureza,
que um cão adulto.
Uma outra
questão, relacionada com a anterior, é a do ritmo de
ingestão. Um cão alimentado a granulado seco não deverá
ingerir a ração toda de uma vez, para evitar congestões
causadas pela embebição, e subsequente expansão, do
granulado no interior do estômago. Cães de diferentes raças
e regiões do globo, em princípio fisiologicamente
semelhantes, são alimentados com dietas de enorme
disparidade: desde quase só carne e gordura no Árctico e
quase só arroz na Índia. Os nossos cães comem bolotas,
azeitonas, e frutos diversos. Ainda não há muito tempo, o
rafeiro do Alentejo era primariamente alimentado com as
conhecidas “perrumas”, um pão ázimo, feito de cereal
integral, frequentemente a cevada. Com esta dieta,
forçosamente desequilibrada, os rafeiros viviam, mas eram em
média menos corpulentos que os actuais. Provavelmente,
asseguravam por si só uma parte das suas necessidades,
caçando algum animal que por perto se aventurasse.
Mas se comem aparentemente quase tudo, não deixam de ter as
suas preferências de carnívoros que são, em última
instância. E, embora não tenham necessidades de proteína
especialmente elevadas – não são muito diferentes das de um
porco – são em contrapartida bastante exigentes na
constituição desta em aminoácidos essenciais.
Deficiências
e/ou desequilíbrios minerais são infelizmente ainda comuns
na alimentação dos cães, em particular na fase que sucede ao
desmame. Os fenómenos de raquitismo e os problemas de patas
são relativamente frequentes, e devem-se em grande parte ao
facto de, bem alimentados em energia, terem peso de mais
para o cálcio e fósforo que ingerem nestas tão críticas
semanas. O facto de estarem então muitas vezes em canis, e
fazerem pouco exercício, mais não faz que agravar uma
situação que poderia não ocorrer na natureza.
Por terem um intestino grosso curto, e por conseguinte uma
população microbiana menos desenvolvida que a de outros
animais, em particular os herbívoros, é presumível que
necessitem de uma suplementação vitamínica cuidada para
satisfazerem todo o seu
potencial. Um cão é um cão, mas diferentes cães podem ter
necessidades muito diferentes: por idade, por actividade,
por estado de saúde, por qualquer outra razão. É portanto
irrealista pensar satisfazer de forma perfeita as
necessidades dos vários cães com uma única
ração comercial.
Com um mínimo
de cuidados, atenção, e algum senso comum, alguns erros que
por vezes se cometem na alimentação dos nossos Rafeiros
poderão ser evitados sem grandes custos. Em próximos artigos
falaremos de alguns aspectos mais particulares do tema, como
por exemplo o da utilização das normas nutricionais
disponíveis, o das vantagens dos alimentos extrudidos
relativamente aos granulados convencionais, ou o da
utilização de alimentos caseiros em vez dos comerciais.
*Especialista de nutrição e criador de Rafeiros do Alentejo