O RAFEIRO DO ALENTEJO ENTRE AS RAÇAS PORTUGUESAS

 

 

*José Ribeiro


Ao debruçarmo-nos sobre o Rafeiro do Alentejo enquanto raça autóctone, não o podemos dissociar dos seus congéneres. Os cães tem acompanhado o homem português ao longo de séculos. Os imensos préstimos que sempre prestaram justificam no mínimo e por si só a sua existência até aos nossos dias.
Todas as oito raças caninas portuguesas reconhecidas oficialmente, para além das duas reconhecidas provisoriamente, têm a sua aptidão funcional.
Em termos de canicultura oficial, registaram-se no ano de 2005 o número de 20 178 cachorros nascidos, entre todas as raças existentes em Portugal, contrastando com os 2 287 de raças portuguesas, número este onde não estão incluídos 45 Barbados da Terceira e 289 Cães de Gado Transmontano por estarem no seu primeiro ano de “existência”. Representam assim as autóctones
apenas 11,3 % das raças registadas durante este ano.
O Rafeiro do Alentejo evoluiu de 2001 a 2005 entre os 17,3% e os 14,3% , relativamente às restantes raças portuguesas.

Panorama dos registos referentes aos últimos 5 anos Raças Portuguesas X Rafeiro do Alentejo

O número de animais inscritos é pois o primeiro dos problemas.

É de sublinhar que existe um défice quanto ás populações registadas relativamente às existências reais, uma vez que nem todos os criadores registam os seus animais por estes “apenas” lhes interessarem sob o ponto de vista funcional. Ultrapassam deste modo a burocracia e os custos respectivos, pelo que em termos de animais realmente existentes e registáveis e em termos de população, estes números pecam por defeito.
Tal deve-se em parte a uma maior exigência por parte do CPC, no controlo das ninhadas nascidas e na obrigatoriedade de identificação dos progenitores e dos cachorros através de microchipagem. Outros factores mais subjectivos, contribuíram igualmente para o maior decréscimo de inscrições verificado nas nossas raças que entre 2001 e 2002 foi de cerca de 30%.
Em muitas das raças o número de animais é pois um factor a ponderar.
Como se compreende, os animais nascidos e registados nos últimos 8 anos (1998 / 2005), são aqueles que podemos e devemos considerar efectivos do ponto de vista reprodutivo e portanto com influência directa nas respectivas raças.
Mostramos no gráfico seguinte a dinâmica verificada no número total de registos nos últimos 8 anos.



Número de cães portugueses registados nos últimos 8 anos

Relativamente ao Rafeiro do Alentejo no que se refere ao número total de cachorros nascidos e registados no mesmo período de oito anos temos 3 414 animais.
Teoricamente metade dos números dos animais registados dizem respeito a fêmeas, pelo que podemos estimar o seu número em cerca de 1 700.
Seguramente que em termos numéricos estamos a trabalhar por excesso ao incluirmos fêmeas que eventualmente terão morrido e outras que por qualquer outro motivo também não entrem em reprodução.



A FAO (1992) definiu o estatuto de risco de uma raça em função do número de fêmeas existentes em idade reprodutiva.

Estatuto Número de Fêmeas
Crítico ‹ 100
Em perigo 100 - 1 000
Vulnerável 1 000 - 5 000
Rara 5 000 -10 000
Sem risco › 10 000

Assim e de acordo com os números apresentados temos:
Em Situação Vulnerável – O Serra da Estrela de pêlo comprido, o Rafeiro do Alentejo, o Fila de S. Miguel e o Perdigueiro Português.
Não temos nenhuma Raça Nacional em situação sequer Rara ou sem risco.
O número de fêmeas não pode contudo ser o único óbice a ser considerado, uma vez que existem outros factores igualmente importantes tais como: o número de criadores existentes, o número de novos criadores, a tendência observada em cada raça no que respeita ao número dos registos referentes aos últimos anos
etc.
O número de pessoas interessadas em cada uma das raças, a sua própria utilidade funcional, o aumento ou o decréscimo do número dos seus utilizadores e a dimensão dos próprios criadores são factores fundamentais, entre outros para a sua preservação.
A sua Genética é outro tema tanto ou mais importante que o anterior.

Na maioria das raças não existem muitos cães registados. Muitas delas são geridas em volta de linhas demasiado consanguíneas para a fixação de determinadas características. A uma elevada consanguinidade encontra-se associada uma baixa variabilidade, com perda inevitável de diversidade genética. A consequente erosão genética pode conduzir a perdas irreparáveis.
Sem se efectuarem estudos que avaliem geneticamente cada uma das raças e o despiste, por essa via, de anomalias que se verificam em algumas delas, sem se definirem diferentes linhas de sangue de molde a se poderem estabelecer programas de gestão e selecção
das mesmas. Será muito difícil para as que possuam um menor número de animais ou mesmo aquelas cujas características principais tenham sido mantidas à custa de elevada consanguinidade, poderem subsistir futuramente.
Por outro lado, não podemos nesta fase em que nos encontramos excluir animais que eventualmente não possuindo características ideais, mais tarde nos possam, do ponto de vista genético, fazer falta, uma vez que poderão ser necessários para futuro refrescamento de sangues.
Para além de se conhecer o Genótipo de cada uma das raças é fundamental o seu estudo de molde a se poder gerir a diversidade genética dos animais registados e não registados, hoje possível através de recursos tecnicamente mais evoluídos.
Em suma, tendo em conta o Património Genético disponível, duas acções se impõem: A sua Defesa, através da Caracterização e Conservação e o seu melhoramento a efectuar através da Selecção. Não nos podemos esquecer que esta Selecção só é possível desde que a subsistência da própria raça esteja salvaguardada.

Apoios específicos lamentavelmente não existem como deveriam em áreas fundamentais como:

-Inventário e identificação das raças. É necessário nomeadamente procurar animais que embora sem registo, fenotipícamente correspondam aos respectivos estalões das raças. Posteriormente testa-los geneticamente.
-Apoio para a caracterização das raças através da sua Avaliação Genética.
-Apoio a programas de conservação e melhoramento hoje facilitados através da Genética Molecular.
A Legislação sempre teve um carácter restritivo quanto à posse de cães.
O último pacote legislativo (Decretos-Lei nºs 312, 313, 314 e 315 de 17 de Dezembro de 2003), veio reforçar esta faceta.
Como agravante, não foram consideradas e contempladas na legislação as sugestões apresentadas pelo Clube Português de Canicultura, continuando a serem simplesmente ignorados os animais ditos domésticos criados numa perspectiva conservacionista.
Por outro lado, as raças são susceptíveis de serem melhoradas quer através das suas características morfológicos, avaliadas em concursos e exposições quer funcionais pelas inúmeras provas instituídas e devidamente regulamentadas nacional e internacionalmente, de acordo com as suas diferentes aptidões. Entre as provas funcionais destacam-se: Provas de Cães de Parar, Provas para Cães de Água, Provas de condução de Gado, Provas de Obediência, Provas de Agility, Provas de Mushing, Provas de Mondioring, etc.
Na realidade, estas manifestações caninas envolvem permanentemente ao longo de todo o ano, várias centenas de pessoas e de animais.
Podem estas actividades serem consideradas de lazer. Não pode contudo ser ignorado o trabalho de um grande grupo de criadores amadores que, ao necessitarem de condições específicas para testar, reproduzir e seleccionar os seus animais numa actividade organizada a que se chama “Canicultura”, sejam pura e simplesmente ignorados pela Lei, servindo esta apenas para boicotar mesmo as suas acções.
No nosso entender, não podem nem devem portanto deixar estas actividades, que incluem pessoas, animais e até instituições, de serem devidamente enquadradas, devendo ser criado com esse fim um estatuto próprio.
Neste estatuto, incluímos as instituições oficiais com responsabilidade na preservação e fomento das raças caninas autóctones e na sua utilização para fins de utilidade pública, entidades estas que sentem igualmente na lei vigente uma grande restrição às suas acções.

Resumindo:

O interesse nas raças caninas portuguesas tem diminuído.
Algumas correm o risco de subsistirem.
Não beneficiam de apoios específicos.
Ainda não beneficiaram dos aportes técnicos hoje tornados comuns na preservação e melhoramento de outras espécies zootécnicas. Não existem programas de gestão das raças nem de despiste das suas anomalias genéticas.
O factor económico é bastante limitativo. A ração para animais de Companhia é a única ração que não paga hoje 5% de IVA mas sim 21%. O preço dos registos que tem subido sistematicamente, a burocracia que igualmente aumentou, são factores desmobilizantes para os criadores.
Por outro lado a própria legislação actual e o modo como foi implementada conduz a situações que nada tem a ver com o garante dos nossos patrimónios genéticos dos quais as instituições oficiais são legalmente as primeiras responsáveis.

(*)Canicultor
 

   
 

 
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